Especialista recomenda cautela para falar da reforma da Previdência

Raquel Nobre

, Leis trabalhistas

Carlos Navarro, advogado e mestre em Direito Tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que quem é pobre precisa da aposentadoria para sobreviver.

O título do presente artigo adianta sua conclusão. Se você mora em um país onde os pobres não conseguem poupar, coloque a mão na consciência e pense, várias vezes, sobre qualquer proposta de reforma da Previdência que afete esta população.

Sendo um cidadão de classe média alta, é muito fácil para mim apoiar a reforma da Previdência. Já comecei meu pé-de-meia e ainda tenho muitos anos na ativa para engordar a meia. De aposentadoria, não precisarei, embora com ela contribua mensalmente. As discussões de aposentadoria não me afetam. Ou melhor, abalam muito indiretamente, pois fazem oscilar alguns recursos que já poupei e mantenho em ações na Bovespa.

A questão previdenciária, portanto, afeta especialmente dois grupos: funcionários públicos que ganham aposentadorias gordas e pobres que ganham estes benefícios para subsistência, se tanto. O primeiro grupo, dos privilegiados do setor público, não quer mudar nada. Ou quer mudar apenas para o segundo grupo. Já o segundo grupo, não tem voz. São os pobres que suportam uma carga tributária sufocante, dada a regressividade do sistema tributário brasileiro. São eles que não conseguem poupar nada durante toda a vida e uma parte disso é graças ao voraz Leão que os ataca a cada consumo de bem ou serviço.

Acrescente-se a isso o fato de que o salário mínimo recebido pela população pobre do país, a título de aposentaria, é integralmente consumido, ou seja, é altamente tributado pelo sistema regressivo do país, ao contrário dos privilegiados aposentados do setor público, os quais, não raramente, conseguem poupar até suas aposentadorias.

Como se pode ver, portanto, permitir uma aposentadoria digna ao brasileiro pobre é mais que uma questão humanitária, é devolver um pouco do tributo pago por aqueles que, graças ao Estado, não possuem condições de poupar durante a vida ativa. E que, novamente, continuarão suportando a alta carga tributária sobre o consumo após a aposentadoria. Assim, se você mora em um país onde os pobres não conseguem poupar, pense duas vezes antes de comentar qualquer reforma da Previdência.


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